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Podcast
Paráxeni: A Ruína dos Persas
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Podcast de Storytelling, onde o Espartano Paráxeni conta o relato de sua vida. O treinamento brutal do Agogê, a vida em Esparta, e a chegada dos Persas.
Podcast de Storytelling, onde o Espartano Paráxeni conta o relato de sua vida. O treinamento brutal do Agogê, a vida em Esparta, e a chegada dos Persas.
Paráxeni - 8 - Quando um Rei Cai
Episode in
Paráxeni: A Ruína dos Persas
Todas as vezes que meus olhos se cruzavam com os de Cletarco, eu tinha apenas uma certeza: Ele via a verdade dentro de mim.
Em minha mente ele não sabia de nada, nem de Lanthasménos, nem de meu futuro filho, ou sequer de meus planos de abandonar Esparta, mas, ele penetrava em meu coração com olhos astutos. Olhos experientes e corajosos.
As questões que eu lhe trazia diariamente, sobre o manuseio da argamassa, a remoção da pedra, o corte da madeira e outras perguntas sobre arquitetura, já não lhe eram estranhas. Ele a todas respondia, ensinando-me tudo aquilo que havia aprendido em seus anos na forja e em Esparta.
Mas ele sabia.
Eu sentia em todos os músculos de meu corpo que ele sabia da verdade.
Com ele eu aprendi a escolher a madeira, lhe aprumar o corte e separar as ripas. Encontrar o mármore e o calcário, cortar a pedra e deslocá-la até onde eu desejasse. Especializei-me em técnicas que poucos conheciam, como a demorada arte do Mousaikón, a arte das musas, onde o encaixe perfeito das pedras proporcionava um solo resistente e suave para a morada.
Os dias de aprendizado eram árduos, e eu passava o dia dividido entre os treinamentos na Katályma, as lições de Cletarco e os cuidados com Lanthasménos.
Ao fim do dia as árvores se tornavam ripas e tábuas, as pedras transformavam-se em degraus e lajotas, meu corpo se fortalecia e se desenvolvia, e meu amor tinha o suprimento da noite e a segurança da madrugada.
Construir uma morada Espartana era mais complexo do que eu imaginava. Toda a estrutura consistia em um quadrado amurado, com um pátio circular no centro, e era desse pátio que os cômodos brotavam, como as pétalas que saem do centro da flor.
Mas a morada Espartana não era frágil como uma flor de primavera. Nossas casas são como fortalezas, e todo e qualquer habitante de Esparta poderia se guarnecer dentro de seus muros por meses. Era exatamente disso que Lanthasménos precisava em meio à floresta, e foi isso que eu lhe entreguei, com minhas próprias mãos. Como lhe foi prometido.
Meus planos de deixar Esparta não me agradavam em nada, pois era ali que eu vivia, e ali foi onde meu corpo havia sido forjado, mas eu não poderia viver em um local tão distante de meu coração, e ele repousava no sorriso de Lanthasménos. Minha vida não tinha mais sentido longe de meu amor, e pouco importava o que poderia acontecer à cidade. Nesse amor me perdi completamente, esqueci de meus deveres com o Estado, e pensava apenas em prover tudo que eu pudesse, para ela e para nosso filho.
As lições já haviam sido aprendidas, e as folhas das árvores já haviam caído por alguns meses. A hora havia chegado, era o momento de construir as bases da vida de meu filho.
A terra, a água, o barro e a lama eram meus companheiros.
A ponteira, o malho, as faíscas e o suor me acompanhavam pela noite.
E assim comecei a construção. Encontrava-me com meu amor sempre no final da tarde, e com ela permanecia até o início da madrugada.
Limpei o terreno com as mãos nuas, tufo por tufo, grama por grama, arrancados direto da raiz, para que não crescessem novamente por sob a argamassa.
Com minha espada desenhei, no tronco de um dos castanheiros, como seria o projeto da casa.
Escavei o solo, com ferramentas produzidas por mim mesmo, nas forjas de Cletarco. Nivelei o terreno e estudei a posição do sol e dos ventos. As árvores caíam às dúzias, e delas eu tirava os recursos de que eu precisava, cortando e esculpindo a madeira até meus dedos amolecerem de cansaço e minhas mãos sangrarem de esforço. E mesmo assim eu não parava, pois o tempo estava rompendo as barreiras de minha estimativa, e Lanthasménos, deitada no solo, me observava com a barriga cada vez maior. Nosso filho estava a caminho e ele não esperaria o término de meu trabalho.
Nos poucos momentos em que eu não estava cortando, quebrando, erguendo ou arrastando algo, eu caçava o alimento para os corpos de meu amor e meu filho, e me contentava com as sobras.
Enquanto as mãos eram utilizadas para a refeição, os pés descalços trabalhavam, pisoteando e misturando a lama, o pó de mármore, e a palha seca. Nenhuma dessas coisas veio de Esparta, nenhum construtor havia as trazido e preparado os recursos. Essa era minha função e meu desejo.
Pois em Esparta a palavra é firme como os braços de Hefesto! Em Esparta não há desistência!
E assim os dias foram se seguindo, com treinamento extenuante na Polis, e trabalho árduo na floresta. Meu corpo reagia a todos esses estímulos, se desenvolvendo e se fortalecendo.
O solo fora preparado, pois eu dominava a arte do Mousaikón. Com a argamassa despejada no terreno, o encaixe das pedras de mármore foi feito. Perdi as contas de quantas vezes minhas unhas se quebraram, partidas e viradas para trás, devido ao esforço repetitivo e demorado. Grandes buracos eram deixados em pontos estratégicos, pois ali seriam erguidas as colunas de madeira.
E assim eu o fiz, com o auxílio de estruturas de madeira e cordas de trepadeiras, eu ergui as poderosas colunas, encaixando sua base no solo. Em seguida, o e
22:40
Paráxeni - 7 - Um Pedaço do Olimpo
Episode in
Paráxeni: A Ruína dos Persas
Nessa etapa de minha vida, éramos praticamente homens.
A segunda fase do Agogê passava como nuvens esbranquiçadas em um céu azulado, rápida e discreta, e os braços da maturidade nos alcançavam. Agora tínhamos direito a usar sandálias e recebíamos uma túnica puída, suja como um chiqueiro.
Éramos apresentados ao Melas Zomos, a refeição típica de Esparta. Cletarco me dizia que fora Hércules quem havia preparado o prato pela primeira vez, por isso a refeição era forte e rústica, grosseira e viril.
O Melas Zomos era a sopa negra dos Espartanos, composta por pedaços enormes de carne de porco, vinagre e sal, água e sangue suíno em abundância. Toda vez que eu comia a refeição, sentia os rios correrem em minhas veias, e por sob meus pés trepidava o solo da Lacônia.
Certa vez um viajante chegou à nossa cidade imponente, e, faminto, implorou por alguma refeição que lhe devolvesse as energias. Os Esparcíatas responderam que a refeição perfeita para ele estava sendo preparada. Depois da primeira bocada na sopa, o homem implorava pelo fim da refeição. Ele saiu de Esparta dizendo que entendia o motivo pelo qual os Espartanos não temiam a morte, pois só assim eles se livrariam de provar a iguaria uma vez mais.
Fraco.
Jamais poderia viver em Esparta. Pois em Esparta não há lugar para pieguice. Tanto era assim que minhas feridas nem bem se curaram e eu já retornava à rotina do Agogê.
Por comporem uma maioria esmagadora de cidadãos em Esparta, os Hilotas, a classe mais baixa da polis, despertavam uma urgência nos Esparcíatas: A necessidade de controlar a super-população de escravos.
Eram nessas ocasiões que os Festivais Hilotas aconteciam.
Os jovens em Agogê eram instruídos e preparados para o início das atividades. Eles deveriam percorrer a cidade, movendo-se em segredo, silenciosos como as sombras, e mortais como a ponta de uma lança. Cada um deveria matar ao menos dois Hilotas, sem ajuda, e em total discrição. Caso fossem flagrados no ato, seriam punidos com o bastão e o açoite, além de perderem a túnica puída e as sandálias. Se o jovem fosse morto pelo Hilota que ele tentasse matar, o escravo ganhava dois dias de folga dos trabalhos manuais, e era agradecido pelo estado, por ter removido um elo fraco da falange Espartana.
Leônidas e eu nos encontramos com os rapazes, antes de sairmos da Katályma, e decidimos elaborar estratégias de ataque, para que nada desse errado, e ninguém saísse no prejuízo, perdendo sandálias ou túnicas.
Então saímos naquele dia, ao lado de nossos irmãos, como formigas saindo de um formigueiro. Adentramos a cidade e nos espalhamos pelas ruas, no entanto, em instantes, nem os pássaros lá no alto podiam nos ver.
Éramos como os espíritos do templo de Lanthasménos.
E assim percorremos a cidade naquele dia.
Hora a vítima era um Hilota atarefado, que passava ao lado de um poço carregando fardos ou jarros, e era surpreendido por um de meus irmãos de Agogê, saído do próprio poço. Hora eram Hilotas em meio às plantações, que desapareciam no trigo alto, como se sugados pelo próprio solo da Grécia.
Foi em uma das forjas, que eu me deparei com os dois Hilotas que matei. Um deles espalhava o carvão na fogueira central, e o outro malhava uma chapa de cobre com força. Investi contra o segundo e lhe tomei o malho, golpeei-lhe a têmpora direita e ele virou os olhos de imediato, morto. Quando o segundo se virou golpeei sua garganta, o metal esmigalhou os ossos de sua goela e rasgou a carne do pescoço, tamanha fora a pressão aplicada na região. Depois os empurrei na fogueira, e joguei carvão por sobre seus corpos.
Nossa tarefa fora cumprida. Centenas de Hilotas pereceram naquele dia.
E nenhum jovem foi pego.
Pois em Esparta se cumpre a lei. E a Lei em Esparta é maior que a própria vida. Fosse essa vida de um Hilota, ou de um Espartano.
Havia uma lei em específico, que me traria sérios problemas, já que eu mantinha um relacionamento com um Oráculo. Que agora estava grávida.
Todo aquele que se deitasse com um oráculo, fosse ele de Esparta ou de qualquer região da Grécia, estava sujeito às penas dentro das polis. Pois apenas os Deuses podiam tocar em seus corpos sagrados e sábios. Acreditava-se ainda, que quando um Oráculo era maculado, seu dom da predição ia por terra, junto ao suor e o sangue do ato.
O fato era que a lei não abria exceções, mesmo que o próprio Rei Anaxândridres fosse o acusado.
A pena resumia-se em duas ações:
A primeira era direcionada ao Oráculo, e consistia em uma execução rápida e sangrenta, nas escadarias do templo do qual ele deveria honrar. E quem deveria realizar o ato era seu amante.
A segunda era direcionada ao amante, e consistia em amputações e mutilações, seguido de exílio, da cidade e da própria Grécia, e qualquer cidadão Grego poderia espancar o acusado, enquanto ele permanecesse nas terras adjacentes.
Essa lei não era infringida há tantos anos, que os próprios Éforos não se lembravam quando alguém o tinha feito.
Eu já havia aceitado meu destino, mas eu subestimava Lanthasménos.
Antes q
16:02
Paráxeni - 6 - Vida
Episode in
Paráxeni: A Ruína dos Persas
O ferimento em meu peito foi um inimigo pior que qualquer herói Grego. Durante muitas noites ele me arrasou, e levou embora minha consciência. As armas de Eliseu estavam embebidas em veneno, algo que desagradou nosso Rei.
Meu pai desejava invadir a Acaia, e encontrar respostas para tal covardia, escorado pelo escudo e pela lança. Mas Leônidas o convenceu do contrário, afirmando que uma serpente havia me atacado, e assim salvando muitas vidas de Pátras.
Enquanto estive perdido em delírios e febre, a ferida continuava aberta, e dela vertiam sangue negro e pus amarronzado. Fui levado ao templo de Ártemis, a pedido dos Éforos, e ali fui tratado, por Cletarco e por Lanthasménos.
Misturas de ervas eram preparadas e trazidas por Cletarco, eu soube posteriormente. E Lanthasménos não saia do lado de meu leito, limpando e tratando minhas feridas.
De todos os dias que assim permaneci, me lembro apenas de três coisas. Três sonhos, possivelmente catalisados pelos gases do templo, vieram até mim. E cada um deles era mais real que o próximo.
Na primeira noite mergulhei profundamente no Mar Egeu.
Rodopiei nas águas e submergi como uma grande pedra. O mar que me circundava, estava repleto de tubarões, que se atacavam e mutilavam-se, despejando sangue em abundancia na água. A todo instante me faltava o ar, e eu pensava que os próximos segundos seriam os últimos.
Mas nunca eram.
Era como se afogar eternamente. Nunca morrendo. Nunca emergindo na superfície.
A água ao meu redor tornava-se rubra, e os tubarões não cessavam as dentadas de suas bocarras. Pedi aos Deuses para que eles se matassem de uma vez, pois se algum deles me atacasse, eu nada poderia fazer. Todavia, quanto mais eles se matavam e se rasgavam, mais tubarões apareciam vindos de cima, de baixo, e de toda parte.
Então não havia mais água. Apenas sangue.
Ainda mergulhado, naquilo que havia sido o Mar Egeu, fui recuperando meu fôlego. O sangue me preenchia, entrando pelas narinas e pela boca, e para mim ele era o ar mais puro da Grécia.
Continuei o mergulho, afundando cada vez mais, até que encontrei um enorme espelho d’água. Era como se um grande lago vivesse no fundo do mar, em segredo.
Tudo ao meu redor ainda era sangue, e eu não mais me sentia sufocado.
Aproximei-me da curiosa forma, e encarei seu espelho.
Nele vi um reflexo fantasmagórico. Eu próprio era um tubarão, coberto por escoriações e cicatrizes, e em minha enorme boca descansava uma criança. Um bebê.
Ele chorava alto, apesar de estarmos no fundo do mar de sangue, e seu choro me partia o coração. Era estranha a sensação de sentir pena de uma criatura tão indefesa.
Um punhal emergiu da boca da criança. Era dourado e repleto de entalhes. Ela se levantou, e com o punhal me golpeou de dentro para fora.
Matando-me sem piedade.
Na segunda noite mergulhei ainda mais fundo. Mas agora eu caminhava em terreno firme.
Em um primeiro momento eu não reconheci o lugar, creio que nenhum Grego o faria, pois ali era a Morada dos Mortos, e poucos que ali chegavam retornavam para contar o que viam.
A rocha negra, sob meus pés, desprendia um piche escuro, com cheiro de carne podre. As paredes, que assumiam a forma de uma caverna colossal, tão alta que se perdia de vista, estavam repletas de corpos. Ali eu vi homens, mulheres, crianças e idosos, presos às paredes, com os braços estendidos buscando desesperadamente agarrar alguma esperança.
Eu passei por eles. Algo me impelia a continuar pelo caminho.
A luz existia apenas onde eu andava, como se uma tocha inexistente acompanhasse meus passos, o resto era escuridão. Mas a escuridão ali era diferente das noites sem luar, ali o breu era perpétuo e inabalável.
Me lembro de ouvir os gritos de agonia, e ao mesmo tempo gemidos de prazer, e, ainda, tudo isso se misturava com gargalhadas. Hora o som de espadas se chocando, hora o som de taças brindando vinham até mim.
O Hades, das histórias de Cletarco, era contado como sendo um local quente e sufocante, mas ele se apresentava para mim de forma diferente. O frio que ali fazia congelava até o fundo dos ossos, e a brisa que vinha de cima era como os golpes de bastão da minha infância.
Ali, por fim, eu encontrei alguém. Ou algo. Era uma figura disforme, uma massa de carne, com braços e pernas, e se sentava no solo. O amalgama de carne possuía duas cabeças, e claramente podia-se ver que eram homem e mulher.
Ao lado deles repousavam uma lança e um escudo.
Eu me aproximei, e a minha luz particular os iluminou. Tantos anos haviam se passado. Tantas lembranças. Mas eu ainda me lembrava do rosto de meus pais. Ambos choravam, envergonhados, suas bocas estavam costuradas com cordas, e em seus olhos eu via o meu reflexo.
Caveira e ossos.
Eles me estenderam as quatro mãos, convidando-me para um último abraço.
Eu estendi meus braços, e apanhei o escudo e a lança. Ali eu matei a memória de meus pais.
Para sempre.
A terceira noite chegou em um campo muito belo. Onde a grama era verde como pedras de jade, e a relva suave
14:13
Paráxeni - 5 - Primeira Derrota
Episode in
Paráxeni: A Ruína dos Persas
Em uma noite, antes de partirmos para a Acaia, eu fui visitar meu amor. Lanthasménos me disse que se eu visse alguma águia no percurso, fosse de perto ou de longe, viva ou morta, eu voltaria para Esparta como um herói, no entanto, eu perderia minha primeira batalha, e carregaria suas marcas para o resto de minha vida.
Ela nunca esteve tão certa.
Mas agora não havia mais volta. Pois agora marchávamos.
Quando eu era jovem, meu pai, o Rei de Esparta, costumava me dizer que quando os Espartanos marchavam, a natureza abria caminho. Fosse isto apenas uma expressão, ou obra dos Deuses, mas naquela marcha não encontramos obstáculos do terreno. Pelo menos não até chegarmos à Acaia.
O trajeto seguia por florestas verdejantes, que possuíam um ar tão bom de se respirar que acalmava a mente. Adentrávamos campos abertos, onde a grama era baixa e rala, e a rocha cinza aflorava do solo. Em alguns momentos bosques com poucas árvores passavam ao lado dos homens na marcha, em outros éramos cercados por árvores imensas, pinheiros titânicos, cujos quais não se podia ver o topo. Eu e Leônidas lembrávamos de histórias sobre monstros com cauda de serpente, vivendo entre as árvores, então a atenção nunca era deixada de lado.
Águias passaram a nos acompanhar, quando chegamos à região da Arcádia, lembrei das palavras de Lanthasménos e estremeci em segredo. Alguns diziam que as aves estavam famintas, esperando algum dos homens cair de exaustão. Eu preferia pensar que era Zeus, olhando por nós.
Por fim, depois de longa e cansativa marcha, chegamos à Acaia.
Ali, as águias nos abandonaram.
Eu pedia, em meu pensamento, que os Deuses não fizessem o mesmo. Mas essas eram preces de meu coração, pois eu nada podia demonstrar. Não. Eu era o imediato de meu irmão, Capitão Leônidas, e meus homens deveriam dormir com a certeza da batalha, e acordar com a certeza da vitória.
O trajeto pela Acaia foi mais sinuoso, os grandes morros de pedra lisa eram difíceis de serem escalados, e as árvores cinzentas caiam pelo solo, juntando escombros por toda parte. Ali o verão era diferente, e parecia que estávamos indo para algum país estrangeiro.
Mas Espartanos nunca recuam. Espartanos nunca desistem.
E com nossos pés descalços atravessamos todas as colinas de pedra, saltamos por sobre todas as árvores caídas, e não nos deixamos abater um instante sequer.
No último dia de marcha tínhamos provisões para uma última refeição, que fizemos em solo Acaio, respeitando e honrando os Deuses, mesmo ali.
Esparta não estava em guerra contra Pátras, nosso objetivo ali não era destruir a cidade, queimar as casas, assassinas todos os habitantes.
Não.
Nosso objetivo ali era o treinamento. Era sentir a fervura da batalha em nossas veias, o impacto do escudo no tutano dos ossos, sentir o gosto do suor do inimigo em meio ao caos.
Arriscávamos nossas vidas, em solo Grego, para que pudéssemos sobreviver a ataques estrangeiros, resguardando a própria Grécia.
Subimos uma última colina, e, emergindo no horizonte, lá embaixo no descampado, estava Pátras, escorada no sopé da montanha. Nossos olhos puderam ver seu contingente em frente à cidade, todos armados e preparados para a batalha. Mais de quinhentos Pátricos haviam sido chamados. Olhei para os céus e as águias agora sobrevoavam nossos oponentes.
Eu esperava que elas estivessem famintas.
Descemos a colina e caminhamos pelo descampado, os pés nus na terra, os escudos brilhando ao sol do meio-dia, e os elmos à tira colo.
Pátras enviou um mensageiro, que veio a cavalo e puxando uma grande biga repleta de comida. Ele trazia palavras de paz, e tentou nos dissuadir com o alimento, mas Leônidas disse que ali havia comida para mais de cem homens, e nós éramos apenas cinquenta. Ordenou que o mensageiro levasse o suprimento de volta, e com um aceno de cabeça me deu um sinal.
Segurei meu elmo com uma das mãos, e olhei em seu interior, me vi refletido no metal e o vesti. O sol agora iluminava o dia com as cores de Esparta. Todos os homens me acompanharam no gesto. Os escudos foram apertados, as lanças empunhadas, e nos olhos dos homens agora queimava uma sede de sangue sem igual.
O exército de Pátras, vendo nossa atividade, apressou-se e rapidamente entrou em formação. Gritos de guerra foram emitidos, e pudemos ouvir alguns deles tocando sinais de posicionamento nos tambores de guerra.
Um dos Espartanos da falange me perguntou se não seria melhor descansarmos da marcha, para só depois atacar. Eu o respondi que não, e pedi para que ele visse as coisas por um viés otimista: Ao menos não precisaríamos nos aquecer antes da batalha.
A falange inteira explodiu em gargalhadas. Inclusive Leônidas e eu. O que causou estranheza em nossos oponentes.
Assim são os Espartanos, nosso júbilo repousa na batalha, e se nela encontrarmos a morte, mais glórioso ele viria.
Não havia mais volta.
A hora havia chegado!
Os pés tocavam o solo da Acaia, poeira subia na corrida, e cinquenta Espartanos caíam sobre os Pátricos. As capas esvoaçavam no ar, os escudos
27:47
Paráxeni - 4 - Somos Animais
Episode in
Paráxeni: A Ruína dos Persas
Paráxeni 4 – Somos Animais
A guerra batia à porta dos homens, como um andarilho estrangeiro, mas era em Esparta que ela morava. Os homens eram a arma mais mortal que os Deuses poderiam ter criado. Mas eles nada seriam. Se não fossem as mulheres.
As mulheres espartanas eram as mais belas de todo o mundo conhecido, mas sua beleza não se limitava a belos cabelos, ou sorrisos esbranquiçados. Diferente das Atenienses, as mulheres em Esparta tinham um papel importante, estivessem elas na cama ou fora dela.
Aos sete anos de idade conheciam a Katályma, os alojamentos de treinamento. Recebiam treinamento militar igual ao dos homens. No entanto, eram liberadas no final da tarde, para que completassem o dia junto à mãe.
Eram encorajadas nas artes e nos esportes, mostrando-se sempre viris e resistentes. A retórica também lhes era ensinada, para que elas pudessem ter voz eloqüente e coerente dentro da polis. Conversar com uma mulher Espartana era como falar com as Deusas do Peloponeso, desde a definição de seus corpos, até a distinção de suas mentes.
Certa vez uma jovem chamada Anacléia caminhava por um dos jardins da cidade, quando foi abordada por um homem de Esparta. Ele despiu-se e exibiu seu corpo para ela. Sem que Anacléia tivesse demonstrado interesse, ele a agarrou pelo braço, e disse que com suas mãos poderia causar traumatismo craniano até mesmo em bárbaros do fim do mundo. Anacléia nada fez. Apenas lhe respondeu que: Traumatismo craniano era o fruto de mergulhos profundos em pessoas muito rasas.
Ela se tornou Éforo um ano depois. E foi a primeira mulher a ocupar tal cargo.
Após o primeiro sangue eram instruídas nas artes sexuais. Onde mantinham relações com Hilotas infecundos, conheciam o corpo de outras mulheres, e aprendiam que os filhos dos Espartanos só eram homens de verdade, pois derivavam das únicas mulheres de verdade.
A certeza de que os Atenienses invejavam os Espartanos jamais tocou meu coração. Mas eu lutaria contra qualquer Deus que dissesse que as Atenienses não sentiam inveja das Espartanas. Pois o coelho que vive na toca, inveja o gavião que domina os céus.
O breu noturno inundava meus olhos. Era impossível distinguir o caminho pelo qual eu seguia. Mas eu já o conhecia bem. O templo de Ártemis era meu segundo alojamento. Minhas fugas eram supervisionadas por meu irmão, Leônidas, que sempre vibrou pelo meu amor. Não havia possibilidade de descoberta, pois o rugido de meu irmão era alto e claro. No menor sinal de alerta eu voltaria e me misturaria às centenas de jovens.
Todo o risco valia para ver meu amor.
Mas naquela noite ela não me esperava nua por sobre a grama.
Lanthasménos estava sentada em seu trono, e os fantasmas a visitavam. Girando à sua volta, cochichando e murmurando, como velhas alcoviteiras, ávidas por contar os causos da cidade.
Eu me deitei na grama e esperei. De olhos fechados.
Seus passos eram macios, a grama gemia por sob seus pés e ela se aproximava como um gato selvagem. Suas unhas arranharam levemente minhas costas, e ela beijou meu pescoço. Nossos lábios se tocaram e os fantasmas assistiram tudo em silêncio. Eu me perguntava se eles contavam as coisas que viam no templo para outros oráculos, mas eles eram silenciosos, e só Lanthasménos podia entender o que eles diziam sem voz.
Nos amamos naquela noite em meio à névoa bruxuleante. Os corpos suados se movimentando no sexo, grama grudando em nossos cabelos, a terra sujava e nos acolhia como dois lobos na floresta. Mordidas carinhosas eram compartilhadas, e só não uivamos naquela noite porque os guardas nos matariam.
Somos animais. Ela me disse. Eu não entendi em um primeiro momento, mas ela falou que eu era o maior urso pardo da Grécia.
Então nos minutos que se passaram ela me contou que Leônidas era o Leão de Esparta. E disse que tinha visto em um sonho, que ela mesma seria rainha de Esparta. E que dividiria o trono com um urso pardo de elmo e escudo.
Paráxeni, o Urso Espartano. Ela me chamou. Palavras venenosas.
O trono de Esparta jamais fora minha pretensão, eu sabia de meu lugar, e faria de tudo para que Leônidas o ocupasse, quando nosso pai se fosse.
Mas meu descontentamento foi em vão. Na manhã seguinte toda a cidade me conhecia pela alcunha.
O Urso Espartano.
Durante os treinamentos, nos jogos, nas lutas, pela cidade, todos conheciam o nome. E diziam que Zeus havia gerado a mim e a meu irmão, no lugar de Anaxândridres, pois éramos Leão e Urso Pardo, os animais mais fabulosos que o mundo já vira.
E assim também fui conhecido até hoje, quando desaparecerei da história do mundo. Mas antes de partir, mais coisas precisam ser contadas a você.
O vento tocava meus cabelos. O escudo era parte de meu corpo, e eu me inclinava como uma árvore nova da Grécia. Segurava meu elmo junto à cintura e admirava a paisagem Grega. Ao meu lado cinqüenta jovens, também em Agogê, preparavam-se para marchar. Iríamos para Pátras, na Acaia, lutar uma batalha de verão.
Essa era a essência de Esparta. A Guerra. Os Esparcíatas não viviam para nada mai
16:04
Paráxeni - 3 - Primeiro Beijo
Episode in
Paráxeni: A Ruína dos Persas
Minha idade era tão incerta quanto a vontade dos Deuses. Por ter perdido meus pais nunca soube minha idade real. Mas os Esparcíatas me puseram junto aos meninos em Agogê que eram da minha altura. Fosse eu um menino alto e novo, ou fosse eu um jovem mais velho e baixo, a adolescência chegou para mim.
As transformações no treinamento foram drásticas. Não mais treinávamos com os punhos ou pedras, agora conhecíamos as espadas. A Sídero Spathí era a espada de ferro espartana, com cabo largo e guarda mão curto, ela era leve na ponta da lâmina e pesada na empunhadura. O quê fazia com que os golpes fossem rápidos e pesados ao mesmo tempo. Mas não era essa arma que fazia um Espartano.
Empunharíamos lanças de guerra. A Loútsos Spartiátis.
Nesse momento aprendemos a manipular a forja e o ferro. Testamos a temperatura do ferro, o peso do martelo e a complexa produção do carvão. Pois todos os adolescentes deveriam forjar suas próprias Loútsos. Se a lança fosse fraca, o guerreiro também seria.
O tempo de produção era muito amplo, e alguns jovens produziam suas lanças em até um ano. Eu levei três meses, pois me interessei pela arte de forjar com vigor e energia. E devo isso a meu amigo, Cletarco.
Cletarco era um homem feito, um Perieco dono de quatro forjas em Esparta. Seu punho era firme como as montanhas da Grécia, e sua sabedoria reverenciava Atena. Ele me escolheu, quando a hora chegou, para que eu fosse seu aluno primordial.
Inicialmente eu não entendi o motivo da escolha de Cletarco, mas depois ele me disse que em meu olhar queimavam as brasas das forjas de Hefesto, e que meus braços eram martelo e bigorna. Só então eu reparei em algo que não recebia minha atenção.
O meu corpo.
O Agogê era cruel e pesado. Mas agora que eu chegava à segunda parte do treinamento, entendia seus resultados. Meus braços e pernas eram fortes como as coxas de um touro, meu peitoral dividia-se ao meio, o abdome era partido em muitas partes, preenchido por músculos estufados e volumosos. Alguns jovens não se desenvolviam, outros atingiam uma condição física excelente, mas meu caso era uma exceção.
Meu pai, o Rei, costumava me dizer que o sangue de Heracles corria em minhas veias, por isso eu era grande e forte. Mas em meu coração essa resposta descansava em Creta, onde eu nasci.
Fosse por obra dos Deuses ou por descendência Creta, minha pegada era firme, e meu martelo batia com força e vontade. Dobrei o ferro de minha lança tantas vezes que perdi as contas. Lembro-me de uma vez ter perguntado para Cletarco até quando dobraria a mesma peça de ferro. Ele me respondeu que quando as ondas parassem de quebrar nas praias, e as chuvas caíssem em forma de folhas de oliveira, eu poderia parar.
Parei muito antes disso, é fato, mas tomou o tempo que precisou tomar.
O feitio do cabo também foi um longo aprendizado. A haste precisava ser cuidadosamente selecionada, pois a Loútsos poderia ter a ponta mais resistente do mundo, mas isso de nada serviria se o cabo se partisse no golpe.
Havia um evento em Esparta, onde os jovens em Agogê eram libertos no Peloponeso, para que pudessem procurar a madeira de suas lanças. Alguns colhiam o material nas redondezas da Polis, outros nem dela saíam. Mas eu tinha um segredo, e seu nome era Cletarco. O homem me apontou a direção de Tégea, cidade vizinha de Esparta. Ele me ensinou que lá, próximo a um braço de rio, eu encontraria as coníferas mais resistentes da Grécia. Se minha Loútsos me esperava em algum local, esse local era ali.
A viagem foi longa, eu me lembro. A pedra galgava a carne de meus pés, e o frio fazia meus músculos vibrarem por sob a pele. Por fim encontrei o local. Com minha espada derrubei uma das árvores, e separei a haste ali mesmo, às margens do rio. A viagem de volta foi mais rápida, pois eu me distraía esculpindo a madeira retangular. Quando eu apontei no arco de entrada de Esparta a haste já estava pronta. Lembro-me até hoje do sorriso de Cletarco. Ele estava orgulhoso de mim. Como eu sinto falta dos ensinamentos e das sábias palavras daquele homem.
Encaixei a ponteira de ferro na madeira e aqueci o conjunto na chama alta do fogo. Mergulhei couro cru em água fervente, e depois retirei, cortando-o em tiras e amarrando-as próximo à ponta mortal. Então ela estava concluída. Cletarco a examinou, e me disse que a madeira absorveria o suor de minha mão, tornando-a mais resistente e pesada. Quanto mais eu suasse empunhando minha lança, menos eu sangraria sem ela. Meu amigo estendeu a arma para mim, e eu a empunhei. Poucas vezes em minha vida me senti tão divino quanto quando empunhei minha própria Loútsos Spartiátis. Apertei o cabo com força, tencionando os músculos de meus braços e peitoral.
Finalmente eu era um Espartano.
A paz reinava em Esparta em algumas épocas. Mas os Espartanos eram moldados para a guerra, não poderíamos ficar parados. E nesses tempos de paz, lutas eram arranjadas. Pequenas guerras contra cidades interioranas.
Certa vez um mensageiro foi mandado até Pátras, na região da Acaia, e suas palavras alertavam os homens d
14:06
Paráxeni - 2 - Quando Uma Deusa Fala
Episode in
Paráxeni: A Ruína dos Persas
A sociedade Espartana era dividida em três grandes grupos:
Os Hilotas eram o grupo mais baixo da polis. Hilotas. Um nome para disfarçar outro. Eles eram escravos.
Os Hilotas faziam todo o trabalho do campo, as atividades domésticas, cuidavam da alimentação, lavavam os templos e tudo mais que não envolvesse comércio ou treinamentos militares. Compunham a maior parte da população de Esparta, mas mesmo assim não eram considerados Espartanos. Não possuíam direitos na política do Estado. Na verdade, quase não possuíam direitos, além de comer sobras e respirar o ar do Peloponeso. Sempre que eu via um Hilota andando pelas plantações, disperso, excluído, eu sentia que meu lugar era ali.
Os Periecos compunham um segundo grupo. Eram os cidadãos intermediários. Cuidavam do comércio e de feitos artísticos ou de artesanatos. Os melhores ferreiros que viviam em Esparta eram Periecos. E um deles era meu amigo Cletarco. Mas a história dele ainda está longe de ser contada.
A camada mais superior da sociedade Espartana eram os Esparcíatas. Espartanos de sangue e alma. Eles tinham plenos poderes políticos, fazendo parte da Apela, onde eram aceitas ou rejeitadas as leis de Esparta. Podiam ser eleitos Éforos, e desfrutar de seus direitos em plenitude. Apenas os Esparcíatas recebiam a educação na Katályma. Apenas os Esparcíatas passavam pelo Agogê. Todos os Espartanos de sangue podiam punir jovens e garotos, não importa o motivo.
Certa vez um homem muito velho me atirou em um monte de esterco, pois para ele, eu o havia insultado com meu olhar infantil. Permaneci de cabeça baixa, pois em Esparta se têm disciplina. Ele me disse que eu só sairia dali após dar uma boa bocada no esterco, mastigar e engolir. E essa foi minha refeição naquele dia.
Se olhando para os Hilotas eu me sentia um escravo. Imagine o que eu sentia olhando para os homens Esparcíatas.
Quando uma criança Espartana nascia, uma grande festa era arranjada. Os Esparcíatas eram convidados para a celebração, e todos eles levavam presentes, honras e graças. Um ramo de oliveira descansava por sobre a porta de entrada da morada, simbolizando o nascimento de um menino.
A criança, se perfeita fosse, era erguida pelo pai e apresentada aos convidados. Eu aprendi que nessas horas os Deuses faziam um brinde, e bebiam de um gole só. Pois os Espartanos assim o faziam, tudo em um único gole.
O menino então era reconhecido pelo pai e lhe era dado um nome. E o nome da criança carregaria todo o peso de seu destino.
Eu não possuía um nome, e isso era um problema para meu Rei.
Anaxândridres veio até mim em uma noite. O frio se deitava sobre minha pele, e eu dormia ao lado dos cães da Katályma quando ele se apresentou. Vestia sua volumosa capa cinzenta, as sandálias eram amarradas com firmeza, e seus passos eram determinados como um golpe de lança.
Levantei-me imediatamente, com os olhos remelentos e a visão embaçada. Ele pediu para que eu lavasse o rosto, pois naquela noite eu falaria com uma Deusa.
Meu Rei conduziu-me pelo portal de entrada dos alojamentos de treinamento, e nos direcionávamos para a Esparta. Seria minha primeira vez de volta à cidade em muitos meses.
A lua era grande e clara. Os Deuses certamente gostariam de assistir o que aconteceria ali. Não havia tochas ou acompanhantes, a guarda de meu pai havia sido dispensada. Ninguém sabia de nosso passeio noturno.
Chegamos a uma grande morada de pedras. Era alta e possuía belas colunas de entrada, as escadas estavam banhadas com algum tipo de líquido escuro, que eu não pude identificar naquele momento.
Sangue.
Em outros tempos sacrifícios eram feitos naquelas escadas. Mas o costume havia mudado, e agora os jovens em Agogê eram açoitados ali, para que o sangue continuasse banhando a pedra, e a Deusa não se enfurecesse.
Aquela era a morada de Ártemis, e ali repousava seu oráculo.
Lanthasménos. Uma das criaturas mais desprezíveis que já conheci.
Entramos no local. O interior do templo era vazio, úmido e escuro. O piso era peculiar, pois grama ali crescia. Uma grama baixa, forrada por borrões de musgo, recebia nossos passos. Raízes saíam do piso e seguiam para o fim do templo, como se fossem flechas disparadas em um único ponto. O trono de Lanthasménos. Onde ela repousava em transe profundo. Seus cabelos negros e sua pele branca assustavam a criança que eu era. Minha vontade era agarrar a capa de meu pai e esconder os olhos no pêlo. Mas eu não faria isso, o bastão tinha me ensinado bem.
O oráculo estava nua e ao seu redor fantasmas dançavam de um lado para o outro. Por sob seu cadeirão haviam rachaduras na pedra, que davam vazão aos gases que a cobriam. Seus olhos eram pedras verdes mergulhadas em poços vermelhos.
Meu pai, o Rei de Esparta, pediu-lhe conselhos, lhe revelou que eu não possuía um nome e pediu para que a Ártemis, através de Lanthasménos, o escolhesse.
Os gases não escapavam por aberturas, e em pouco tempo nós estávamos respirando os fantasmas do oráculo. Eu pude ver claramente, como o sol do meio-dia, seus cabelos se moverem por vontade
10:32
Paráxeni - 1 - Pai e Irmão
Episode in
Paráxeni: A Ruína dos Persas
Paraxéni - 1 – Pai e irmão.
Esparta me recebeu com os braços abertos. Eu chegava sob o olhar dos homens, e sob a benção dos Deuses. E nos olhos de cada espartano que assistia meus passos cambaleantes, eu via orgulho e glória.
Fui conduzido ao Katályma, as barracas de treinamento infantil, que ficavam distantes das casas da cidade. Ali eu seria forjado homem, dobrado e martelado, partido e fortalecido.
As semanas que se seguiram foram ásperas. Mas em Esparta, essa é a lei e o costume.
Não havia roupas. Não havia pertences. Tudo que precisaríamos nos próximos doze anos estava em nossos corpos, e em nossos corações.
Eu e os outros garotos levantávamos pedras de grande peso, corríamos em volta da cidade até a exaustão. Tínhamos as costas e as coxas golpeadas com bastões e galhos de oliveira. Quando esboçávamos fraqueza o açoite era usado. Primeiro nas pernas, pois eram as que fraquejavam de início, e depois no rosto, pois nossos inimigos não poderiam ver Espartanos em angústia. Esta é a fase da Meninice, onde o garoto deveria morrer, e o homem despertar.
Cavalos eram trazidos, e nós devíamos derrubá-los apenas com as mãos nuas. Era impossível concluir a tarefa sozinho, e ali aprendíamos a trabalhar em conjunto. Alguns meninos distraiam o animal, enquanto outros fechavam o cerco, para assim então pularmos em suas patas e seu lombo. Os coices eram violentos e ossos se partiam. As mordidas machucavam e rasgavam a pele. Mas no final do exercício trazíamos os animais para o chão.
As refeições eram escassas como os sorrisos dos jovens em Agoguê, mas um Espartano não vive para a comida, e sim para o Estado. As azeitonas eram divididas, e em ocasiões raras o óleo de oliva era entregue aos cozinheiros, que se deliciavam com a maior parte. Era um direito deles.
Espartanos não se queixam.
Espartanos não conhecem o lamento e as lamúrias.
Inicialmente eu não me sentia parte daqueles garotos, tão pouco daqueles homens. Ainda sentia o abraço apertado de meus pais, mas essas eram lembranças tolas, que foram removidas no açoite e no bastão.
Éramos habituados às baixas temperaturas do inverno, onde a neve toca o solo e Zeus descansa seus golpes de chuva. Permanecíamos no gelo, nus e famintos, às dezenas. E nossos corpos nos aqueciam quando os exercícios não eram suficientes.
Mas o ar na Lacônia não era apenas neve, e nos verões Apolo castigava o solo com sua carruagem divina. Passei tantas horas embaixo de sol escaldante, correndo e treinando, erguendo pedras e pegando água, que o próprio fogo não mais me incomodava.
As colunas da Katályma não eram esbranquiçadas como as de qualquer outra cidade da Grécia, tão pouco amareladas pelo tempo ou sujas pela lama.
Colunas rubras. Marcadas por golpes de punhos, que de tanto se quebrarem enrijeciam e se tornavam resistentes como escudos de batalha.
Os inimigos não eram cavalos. Nem colunas avermelhadas. Não eram pedras e não se pareciam com a fome. Os inimigos eram humanos. Eram homens. Eles possuíam falhas e era necessário aprende-las. As lutas contra os garotos mais velhos começariam. Ainda não era a hora, mas ali, na arena de areia, eu aprendi uma lição que jamais esqueceria: Matar.
A arena era pequena, nada mais que uma porção do piso afundado e repleto de areia. Eu estava de um lado do circulo, e ele do outro. As lembranças do menino da madrugada vinham à tona, mas eu não teria um punhal desta vez. E os Argonianos não mais me salvariam.
Seu nome era Despoinída, e em seus olhos queimava a chama da morte.
Estudamos-nos durante alguns momentos. Olhos de lobo. As faces duras e sérias, como as montanhas da própria Grécia. Guerreiros em corpos de crianças. Os músculos de meus braços respondiam às batidas de meu coração. Eu não podia vacilar. Não haveria uma segunda chance.
Ele se apoiou em uma das mãos e jogou a perna direita por sobre meus pés, tentando me derrubar. Eu saltei por sobre o golpe e girei o punho no ar, descendo em um movimento firme.
Areia. Foi o que atingi.
Ele se movia depressa, talvez tão depressa quanto eu, ou mais. Os homens incentivavam a todo instante, com palavras de coragem e risadas de entretenimento.
Mas nós não ouvíamos nada. Os maxilares apertados, os olhos fixos. E a imagem do menino da madrugada enchia meus pensamentos novamente.
Agora fui eu quem atacou. Abaixei-me, flexionando os joelhos, os pés enterrados na areia me deram o impulso necessário. Lancei-me contra seu peito, como se eu próprio fosse uma flecha.
Quão jovem eu era. Quão desesperado eu estava.
Ele tentou desviar, mas um de meus joelhos lhe beijou a boca. O golpe deu um estampido seco, que me fez lembrar as surras que eu dava nas colunas, noite após noite.
Ele caiu em desgraça. A boca coberta de sangue, o queixo travado. Seus olhos estavam virados e ele ainda mantinha os braços erguidos, contorcidos como uma serpente.
Os homens pararam a algazarra. Mas eu não ouvia nada.
Despoinída tremia violentamente, e era claro que todos os músculos de seu corpo estavam contraídos.
Espartanos nunca protela
12:13
Paráxeni - Prólogo
Episode in
Paráxeni: A Ruína dos Persas
O Relato de Paráxeni de Esparta.
O mar lamentava o acontecimento futuro.
As ondas tocavam a areia, mas fugiam logo em seguida, temendo serem maculadas pelo sangue do homens.
O sol pálido já não aquecia mais, apenas iluminava o dia, com tristeza e pesar. Em Esparta temos um ditado: “Veja apenas aquilo que Apolo quer lhe mostrar.” E ele nos mostrava cinqüenta mil Persas fedorentos atracando na praia. Com seus tecidos imundos e suas flechas covardes.
Ao meu lado tremiam dez mil Atenienses, acostumados às palavras e diálogos. Mas como se dialoga com um demônio? Quais os argumentos válidos quando os Deuses olham de soslaio para os homens?
Eu e meus irmãos Espartanos estávamos em seis. E eu sabia, de alguma forma, que faríamos a diferença ali. Muitos diriam que estaríamos no lugar errado e na hora errada. Em meio à tantos Atenienses, longe de casa e de nossos Reis. Mas o lugar de um Espartano é onde seu coração repousa, e o meu habitava a batalha.
As velas dos navios persas eram como os fantasmas do submundo, vindos diretamente do Hades, carregando presságios de morte e medo. Mas não para mim. Para mim ela trazia um inimigo real e digno de minha força, onde eu afundaria meu punho e minha lança.
O vento que vinha do mar era salgado e arenoso, entrava nos olhos dos homens, fazia arder e coçar, alguns murmuraram que Poseidon nos mandava sair dali imediatamente. Mas se os Atenienses não se retiravam como poderiam os Espartanos faze-lo?
Meu escudo era meu corpo, minha capa meu estandarte, e minha lança estava casada com os músculos do meu braço.
Os persas prepararam suas armas de covardes, e de uma hora para outra as setas subiram, para nos atingir em uma espiral de morte.
Meu nome é Paráxeni. Essa batalha ficaria conhecida como A Batalha de Maratona, mas minha história começa muitos anos antes dela.
O Agoguê. O treinamento brutal e exclusivo dos Espartanos. Todas as crianças de sangue Espartano eram submetidas a ele, não havia piedade ou favorecimento. Os inscritos seriam forjados no suor do treinamento.
E foi assim que eu o conheci. Nunca soube seu nome, mas posso garantir que ainda o vejo em meus pesadelos. Ele era uma criança magra, estava nu e cansado. Trazia uma pedra ensangüentada em uma das mãos. Era uma criança Espartana em Agogê.
Eu também era uma criança, não muito mais gordo que ele. Minha família havia fugido de Creta comigo, passado alguns dias nas florestas, mas meus pais contraíram alguma doença, talvez dos animais que caçamos, ou do peixe que pescamos. Eu estava sozinho. Faminto e cansado. A única diferença entre eu e aquele menino Espartano é que ele tinha uma pedra, e eu um punhal. Em nenhum momento trocamos palavra. Não havia lugar para conversas ali. Éramos animais em conflito.
A lua assistia calada. E eu me perguntava se os Deuses testemunhavam aquela cena. Rezei por alguns segundos, em meu coração, pedindo força a Ares. Quando terminei ele atacou. A força do garoto era descomunal, ainda posso sentir o aperto de suas mãos em meu pescoço. Lutamos como animais, não havia disciplina ou honra, só o instinto de sobreviver.
E de matar.
A pedra dele encontrou meu corpo muitas vezes, assim como meu punhal lambeu sua carne. Ele me desarmou em determinado momento e agora possuía a pedra e o punhal. Cinco minutos depois eu estava completamente ferido, as roupas rasgadas caíam pelo chão, e agora estávamos os dois nus. O vento era frio, e soprava meus ferimentos com afeto. Ele deu um último ataque, e a flecha o acertou. O pobre garoto caiu sem vida, com a seta em seu olho direito.
Por instinto apanhei o punhal e me deitei no solo gramado.
Argonianos. Estavam caçando longe demais de sua cidade, confundiram o garoto com um lobo ou uma lebre. Eles jamais matariam um Espartano por prazer, fosse ele um homem ou um menino.
Me esgueirei pela grama, lembrando de uma brincadeira de criança, ainda em Creta. Não podia ser visto. Os dois homens se aproximaram do garoto. Um dos argonianos o virou no solo, de barriga para cima, levou a mão na boca, espantado.
Nesse momento eu já havia matado seu conterrâneo. Ele se virou e encontrou meus olhos. Meu punhal perfurou sua garganta. Ele ainda tentou me estrangular, mas suas mãos eram fracas, nem se comparavam à força do menino Espartano.
Não caí de cansado, nem reclamei de meus ferimentos. Me livrei do punhal e caminhei.
Os Deuses devem ser muito sádicos, ou muito sábios, pois na madrugada eu encontrei Esparta.
09:57
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